"Um país de mal dizentes e de lambe-botas." Não partilho de uma visão derrotista relativamente ao Povo Português. Muito pelo contrário. Penso que o Povo Português tem um enorme bom senso e muita experiência acumulada ao longo dos quase nove séculos de história que tem atrás de si: uma cultura inata, que lhe faz escolher, normalmente bem, as opções a seguir, em especial nos momentos decisivos.
E, no entanto, há umas franjas, que às vezes se tornam muito visíveis, ainda que hiperminoritárias, de sinal contrário: os lambe-botas e os maldizentes. Os "lambe-botas" são os que estão atentos aos sinais do poder, sejam quais forem - político, económico ou cultural - para, em genuflexão, colherem umas migalhas que caiam do poder. Às vezes migalhas, outras grandes benesses, conforme o jeito e o estatuto dos artistas da genuflexão.
Por outro lado, os maldizentes profissionais, que se comprazem em dizer mal de tudo e de todos, em especial da Pátria. E dos governos, claro, sejam quais forem. Sem se importar com o que vem depois. É a política do quanto pior melhor. Por feitio, azedume, por estarem mal com a vida e com eles próprios.
Uns e outros são nefastos, naturalmente. Os lambe-botas mais do que os maldizentes. Mas deixemo-los falar, com a tolerância possível, enquanto a caravana passa.
Mário Soares, "Diário de Notícias", 29-1-2008
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