A esquerda dos interesses
Na véspera de Natal, na secção de opinião do Público, Jorge Bateira, José Castro Caldas, André Freire, Alexandre Azevedo Pinto, José Reis e João Rodrigues resumiam as conclusões do painel sobre economia do Encontro Democracia e Serviços Públicos promovido, entre outros, por Manuel Alegre.
1. Aquele artigo de opinião intitulava-se “Em defesa do público nos serviços públicos”. Procurei essa defesa no corpo do artigo mas não a encontrei, nem mesmo na secção “Valorização do serviço público”. O que aí se defendia era, no essencial, que: (i) deve haver um forte sector público na economia; (ii) “os funcionários podem e devem ser mobilizados para garantir o sucesso de quaisquer reformas”; e (iii) é “necessário promover a desmercadorização do trabalho através de regras que protejam os trabalhadores”. Independentemente da maior ou menor justeza de cada uma destas conclusões, nada, repito, nada é dito sobre a “defesa do público nos serviços públicos”. A não ser que a razão de ser do carácter público dos serviços públicos seja a protecção dos trabalhadores públicos, independentemente da satisfação do interesse público nos serviços por eles prestados.
2. A ser assim, a renovação da esquerda em que se propõem participar os autores do artigo e os promotores do Encontro será feita em marcha-atrás. Pois, o que acaba por se defender como papel para a esquerda é, simplesmente, a defesa dos interesses dos trabalhadores, instrumentalizando a este objectivo a próprio existência dos serviços públicos. Ora, a não ser que retomemos uma velha “grande narrativa” segundo a qual os interesses dos trabalhadores ou, mais rigorosamente, do proletariado, se confundem com o interesse geral, não sustentável fora do plano estritamente ideológico, a esquerda tem que ser mais do que uma esquerda dos interesses, independentemente de quem sejam esses interesses. Até porque a história está cheia de bons exemplos dos maus, no plano dos valores, interesses operários: por exemplo, na histórica promoção da xenofobia por sindicatos preocupados, antes de mais, com a protecção do trabalho dos seus associados através do fechamento dos mercados de trabalho nacionais à imigração.
3. Por outras palavras. Afirmar, em geral e em abstracto, a defesa dos interesses dos trabalhadores é afirmar nada sobre a natureza de esquerda das propostas que se fazem. Os interesses não são legítimos ou ilegítimos em função da natureza dos interessados mas em função da natureza desses mesmos interesses. Uma nova esquerda não pode, por isso, voltar a ser a velha esquerda dos interesses.
DO OUTUBRO
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