
Um excelente artigo de João Tunes no Blog CAMINHOS DA MEMÓRIA
Um desencanto suficiente que desemboque na ruptura com a militância partidária implica uma conjugação de circunstâncias, evidências e sentimentos, uma espécie de drop point, que encadeie a capacidade de romper e fazer o luto. É como nos divórcios, poucos serão aqueles que são decididos na primeira constatação da falta de sentido de uma co-habitação. A decisão de «cada um ir às suas», quantas vezes aparece sobre um motivo aparentemente irrelevante mas que é a gota de água que transborda o copo, aparece como momento da necessidade inevitável de lucidez. E surge na altura, naquela altura, muitas vezes a do tal pretexto menor, porque se consegue então a margem racional para constatar o óbvio que não se viu nos momentos de paz, mais ou menos tranquila, com o desacerto.
A vida num partido comunista, se a militância for séria e a sério, é uma espécie de vida substituta. Ali estão os nossos ideais, ali está o nosso sentido de servir, ali estão os melhores, os nossos amigos e os nossos heróis, ali estão os amanhãs que merecem tudo para se negar e compensar o que hoje nos desgosta enquanto ser social. Ali está o vermelho que ilumina os cinzentos da nossa impotência da sensação de pequenez face às forças que nos trituram e trituram os outros. Aquele universo dá-nos a grandeza de sermos camaradas no Nós. Cada um é herói na sua dimensão de dar, ser e fazer, em osmose com os melhores, os mais valiosos, os mais talentosos, os mais capazes. «Eu limito-me a cobrar cotas» mas sou tanto como o herói que sofreu torturas e não falou. «Eu sirvo no bar de um Centro de Trabalho», mas sou tanto como o camarada que saltou as muralhas do Forte de Peniche. «Eu vou levantar o punho na manifestação», mas sou tanto como o Camarada que fala na Televisão ou lidera o grupo parlamentar. «Eu vou fazer claque para apoiar o último livro do camarada Saramago (Nobel!)» e sendo seu camarada, sinto que poderia escrever os livros que ele escreve, ou que os livros dele têm um parágrafo que podia ser meu. «Eu levanto o punho quando se evoca Cunhal» e sou igual a ele pois Ele é dos meus, pertence-me embora seja eu que pertença à sua memória exemplar, genial, heróica, inimitável, única.
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