domingo, abril 24, 2011

OS PALADINOS DO CONSENSO

Paladinos do consenso

Não deixa de ser irónico que alguns dos signatários de manifestos e petições para acordos entre os partidos acusem os políticos de estarem “crispados”, de não se entenderem, etc., passando por cima de entrevistas e declarações que eles próprios fizeram e fazem a jornais e televisões, não poucas vezes bem mais incendiárias e destrutivas do que as acusações entre os partidos.

Algumas dessas personalidades, porque tidas como apartidárias e credenciadas, e por isso disfrutando de grande apoio e credibilidade junto dos jornalistas, têm alimentado o clima de crispação entre políticos e partidos, como facilmente se constata analisando a repercussão que as suas posições adquirem nos meios de comunicação social.

É impossível não pensar nisso quando se assiste, como aconteceu hoje, à transformação de algumas dessas personalidades em paladinos do consenso entre os partidos e os seus líderes, deslocando-se em peregrinação ao Palácio de Belém, com as televisões atrás, para apresentação ao Presidente da República, em representação de um grupo de “notáveis”, do manifesto “Um compromisso nacional” onde defendem “uma convergência entre partidos e instituições, face à «credibilidade externa» em tempo de crise”.

Ora, a tão desejada ”convergência” presumivelmente inclui, além do PSD e do CDS, o PS de José Sócrates. O pormenor não é supérfluo, uma vez que os portadores do manifesto (ver foto acima) têm dito em público que o Primeiro Ministro “não pode ser parte da solução” (para citar o mínimo do que têm dito). Sem ir mais longe, bastará recuperar uma ou duas entrevistas de um dos signatários do manifesto – António Barreto – com títulos como :“Fomos enganados durante 6 anos” ou Crise política é “golpe” de Sócrates para se vitimizar”.

Naturalmente, os signatários do manifesto têm o direito, e em alguns casos até o dever (quando, bem entendido, possuem currículo para isso) de apontar os erros da acção do governo ou os problemas do funcionamento do sistema político. Aliás, alguns deles fazem ou fizeram isso. É o caso de António Barreto. Porém, algumas das suas últimas intervenções, talvez contagiadas pela crispação que o Manifesto aponta ao clima político, também visível no discurso de certos empresários, situam-se mais no plano da luta política, por vezes com ataques ad hominen, do que no campo onde António Barreto é, indiscutivelmente, um dos melhores, a saber, a análise sociológica da realidade portuguesa.

Daí que o Manifesto hoje apresentado ao Presidente da República suscite fundadas reservas quanto à sua credibilidade e coerência.

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