ueridos amigos alemães
• Ana Gomes, Queridos amigos alemães [hoje no Público]:
- ‘O
vosso empresariado descobriu a China para vender o que produzíamos nas
vossas fábricas. Para lá tratou de deslocalizá-las, substituindo-nos (e a
vocês) por explorável mão-de-obra local. A falta de competitividade das
nossas economias não é só culpa nossa: a UE desindustrializou-se nas
últimas décadas, pagou a agricultores para não produzirem e a pescadores
para não pescarem. E agora, que não temos fábricas, agricultura ou
barcos, vêm empresas alemãs buscar-nos jovens qualificados mas sem
trabalho. Dão jeito também para conter os vossos salários.
O euro pode ruir amanhã: por mais cimeiras que façam, esses aprendizes de feiticeiro não controlam o feitiço que puseram à solta nos mercados financeiros. Os vossos bancos, com o choque do Lehman Brothers, terão aprendido a livrar-se do subprime tóxico incautamente acumulado. Mas não despacharam obrigações emitidas pelos nossos Estados e desvalorizadas quando a Sra. Merkel negou que dívidas soberanas pudessem ser resgatadas. Depois tiveram mesmo de ser. E os especuladores ficaram a perceber que valia a pena especular, muitos apostados em arrasar o euro. Ao exigir haircuts aos privados no resgate da Grécia, a Sra. Merkel deu-lhes gás: dispararam juros e o contágio na zona euro.
A especulação já dobra Espanha e Itália e ameaça França. É urgente que a Alemanha deixe o BCE assumir-se como financiador de último recurso na zona euro. Na verdade, o BCE já acorre a aflições, mas compra dívida a investidores, em vez de directamente aos Estados. Quanto ao reforço do FEEF, já se viu que não vamos longe, com o patético apelo aos chineses...
Os portugueses estão a penar para equilibrar contas. Perigosamente, sem equidade social e em dose cavalar de austeridade recessiva, ditada pela nossa direita, mais "troikista" que a troika. Mas só com austeridade ninguém paga dívidas! Precisamos de estratégia e recursos para relançar crescimento e emprego. E de políticas de coesão e convergência para contrariar crescentes desequilíbrios macroeconómicos entre países do euro. Os vossos superavites orçamentais, amigos alemães, são contrapartida dos nossos défices.
Para não terem de nos sustentar, deixem mutualizarmos a dívida, para voltarmos aos mercados a juros comportáveis; respeitando regras, bem-entendido, mas beneficiando da boa notação que vocês e poucos na zona euro ainda mantêm. Chamem-lhes eurobonds, "obrigações de estabilidade" ou o que queiram.
Queremos mais Europa, incluindo união fiscal, contra a evasão, a fraude e o dumping fiscal que priva os nossos Estados de cobrar impostos a empresas que se domiciliam no Luxemburgo ou na Holanda sem declarar o que ganham pelo mundo. Queremos o imposto sobre transacções financeiras que propõe o ministro Schauble, para fúria do Cameron e da City - além do que renderá para investirmos na economia, trava a drenagem para off shores.’
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