Condenados a mentir... DO BLOG "TERRA DOS ESPANTOS"
Sim, é isso mesmo. Os partidos da
direita (PSD e CDS) mentiram para chegar ao poder e estão condenados a
continuar a mentir para nele se manterem. Para conseguirem o seu objectivo
inventaram um bode expiatório (José Sócrates) e não podem prescindir dele. Esta
é a conclusão que se pode tirar da crónica de Miguel Sousa Tavares publicada na
edição de hoje do "Expresso" que, a seguir, transcrevo parcialmente.
A transcrição é longa, mas vale a pena ler, para refrescar a memória:
"(...) José
Sócrates começou a governar em 2004, recebendo um país com um défice de 6,2%,
após dois governos PSD/CDS, numa altura em que não havia crise alguma nem
problema algum na economia e nos mercados. Para mascarar um défice
inexplicável, os ministros da Finanças desses governos, Manuela Ferreira Leite
e Bagão Félix, foram pioneiros na descoberta de truques de engenharia
orçamental para encobrir a verdadeira dimensão das coisas: despesas para o ano
seguinte e receitas antecipadas, e nacionalização de fundos de pensões
particulares, como agora.
Em 2008, quando terminou o
seu primeiro mandato e se reapresentou a eleições, o governo de José Sócrates
tinha baixado o défice para 2,8%, sendo o primeiro em muitos anos a cumprir as
regras da moeda única. O consenso em roda da política orçamental
prosseguida e do desempenho do ministro Teixeira dos Santos era tal que as
únicas propostas e discordâncias, de direita e de esquerda, consistiam
sistematicamente em propor mais despesa pública. E quando se chegou às
eleições, o défice nem foi tema de campanha, substituído pelo da "ameaça
às liberdades" (...)
Logo depois, rebentou a
crise do subprime nos Estados Unidos e Sócrates e todos os
primeiro-ministros da Europa receberam de Bruxelas ordens exactamente opostas
às que dá agora a srª Merkel: era preciso e urgente acorrer à banca,
retomar em força o investimento público e pôr fim à contenção de despesa, sob
pena de se arrastar toda a União para uma recessão pior do que a de 1929.
E assim ele fez, como fizeram todos os outros, até que, menos dum ano
decorrido, os mercados e as agências se lembraram de questionar subitamente a
capacidade de endividamento dos países: assim nasceu a crise das dívidas
soberanas. Porém não me lembro de alguém ter questionado, nesse ano de 2009,
a política despesista que Sócrates adoptou a conselho de Bruxelas. Pelo
contrário, quando Teixeira dos Santos (...) começou a avançar com PEC,
todo o país - partidário, autárquico, empresarial, corporativo e civil - se
levantou, indignado, a protestar contra os "sacrifícios" e a
suave subida de impostos. Passos Coelho quase chorou, a pedir desculpa aos
portugueses por viabilizar o PEC 3 que subia as taxas máximas de IRS de
45 para 46,5% (que saudades!)
(...) O erro de Sócrates foi
exactamente o de não ter tido a coragem de governar contra o facilitismo geral
e a antiquíssima maldição de permitir que tudo em Portugal gire à volta do
Estado(...). Quando ele, na senda dos seus antecessores desde Cavaco Silva (que
foi o pai do sistema) se lançou na política de grandes empreitadas e obras
públicas (...) o que me lembro de ter visto, então, foi toda a gente
(...) explicar veementemente que não se podia parar com o "investimento
público", e vi todas as corporações do país (...) baterem-se com unhas e
dentes e apoiados pelos partidos de direita e de esquerda contra qualquer
tentativa de reforma que pusesse em causa os seus privilégios sustentados pelos
dinheiros públicos. O erro de Sócrates foi ter desistido e cedido a
essa unanimidade de interesses instalados, que confunde o crescimento económico
com a habitual tratação entre o Estado e os seus protegidos. Mas ainda me
lembro de um Governo presidido por Santana Lopes apresentar um projecto de TGV
que propunha não uma linha Lisboa-Madrid, mas cinco linhas, incluindo a
fantástica ligação Faro-Huelva em alta velocidade. E o país, embasbacado, a
aplaudir!
Diferente disso é a crença
actual de que a dívida virtuosa - a que é aplicada no crescimento sustentado da
economia e assegura retorno - não é essencial e que a única coisa
que agora interessa é poupar dinheiro seja como for, sufocando o país de
impostos e abdicando de qualquer investimento público que garanta algum futuro.
Doentia é esta crença de que governar bem é empobrecer o país. Doente é um
governante que aconselha os jovens a largarem a "zona de conforto do
desemprego" e emigrarem. Doente é um governo que, confrontado com mais
de 700.000 desempregados e 16.000 novos cada mês, acha que o que
importa é reduzir o montante, a duração e a cobertura do subsídio de
desemprego. Doente é um governo que, tendo desistido do projecto de
transformar Portugal num país pioneiro dos automóveis eléctricos, vê a Nissan
abandonar, consequentemente, o projecto de fábrica de baterias de Aveiro, e
encolhe os ombros, dizendo que era mais um dos "projectos no papel do engº
Sócrates". Doente é um governo que acredita poder salvar as finanças
públicas matando a economia.
O fantasma do engº Sócrates
pode servir para o prof. Freitas do Amaral mostrar mais uma vez de que massa é
feito, pode servir para uns pobres secretários de Estado se armarem
em estadistas ou para os jornais populistas instigarem a execução sumária do
homem. Pode servir para reescrever a história de acordo com a urgência
actual, pode servir para apagar o cadastro e as memórias inconvenientes e
serve, certamente, para desresponsabilizar todos e cada um: somos uns
coitadinhos, que subitamente nos achámos devedores de 160.000 milhões de euros
que ninguém, excepto o engº Sócrates, sabe em que foram gastos. Ninguém sabe?"
(Sublinhados meus)
Ora digam lá, se, perante isto, os farsantes que nos governam, não têm mesmo de continuar a mentir. É que têm mesmo, porque no dia em que o povo se dê conta do logro em que caiu, arriscam-se a que o povo "lhes vá às ventas"*.
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