sábado, janeiro 25, 2014

O RUI ADERIU AO TEA PARTY

O pluralismo e a indignação de Rui Ramos

Daniel Oliveira
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Tropeçando num discurso caótico, aumentando a violência retórica à medida que defende posições mais indefensáveis, Rui Ramos acusa a política de ciência deixada por Mariano Gago de "golpismo", "demagogia", "desonestidade", "profundamente repugnante", "insustentável" e de "premiar quem faz despesa". E, depois duma inundação de adjetivos aleatórios, remata: "não dá para discutir nada disto". Mas discute, afirmando que estabelecer uma relação entre o investimento em ciência e o desenvolvimento país revela uma "mentalidade primitiva" e de "terceiro mundo". Concluindo que, depois de todo este esforço, vivemos numa "sociedade mais obscurantista".
Porque é difícil estabelecer um debate com base em afirmações inexplicadas e inexplicáveis, concentro-me noutro momento, quando Rui Ramos afirma que não devia ser a FCT a atribuir bolsas. Que isso é "colocar o Estado à frente, e os governos e os ministros". E que foi isso que criou "esta situação". Vou passar ao lado de Rui Ramos ser membro do Conselho Científico para as Ciências Sociais e Humanidades da FCT, onde a justiça da sua presença me parece, ao contrário do que sucede com a mulher de Nuno Crato, consensual. E de ter sido, ele próprio, bolseiro da JNICT, antecessora da Fundação, o que me levaria a acreditar que o problema de Rui Ramos é estas bolsas não estarem reservadas a uma pequeníssima elite de que sente fazer parte. Esse é todo um outro debate sobre o elitismo saudosista duma certa direita portuguesa.
Prefiro concentrar-me nas razões políticas que o levam a este discurso. O problema de Rui Ramos não é obviamente a ciência, que ele pratica. Não são as evidentes vantagens da qualificação, que ele procurou para si. Rui Ramos não ama a ignorância. O que Rui Ramos detesta é o papel do Estado, que para ele são "ministros e governos" (isto sim é demagogia), na produção científica. É uma questão de princípio? Não me parece. Até porque, para além de ter sido bolseiro, Rui Ramos é investigador do ICS, um laboratório associado da FCT.
Rui Ramos trabalha nas ciências sociais. As que são evidentemente mais marcadas pelo discurso político. E de todas elas, a História talvez seja onde isso é mais evidente (haverá poder maior do que o de dominar o passado?). E sabe que no dia em que as ciências sociais dependerem, em Portugal, exclusivamente do financiamento privado ou até apenas de projectos de universidades cada vez mais dependentes de parcerias e acordos com instituições privadas, haverá uma alteração muito relevante no discurso dominante das ciências sociais. Em todas elas acontecerá o que já aconteceu na Economia e está lentamente a acontecer na Sociologia.
A verdade é que Rui Ramos, como muitos dos intelectuais orgânicos da nova direita, fez todo o seu percurso num ambiente académico e intelectual em que, há pelo menos meio século, na Europa, e, desde o 25 de Abril, em Portugal, há uma hegemonia do pensamento de esquerda. E sente que está na hora de inverter essa situação. É absolutamente legítimo. Quem pensa que nas ciências sociais não se confrontam posições ideológicas distintas deve ficar-se pelas ciências exactas. O que não é legítimo é, para o conseguir, pretender pôr em causa o pluralismo científico através do financiamento.
Sim, o poder político tem um discurso e procura nas ciências sociais a sua legitimação. Como muito bem sabe Rui Ramos. Felizmente para nós, coisa que os liberais fazem sempre por ignorar, o poder político que temos depende da democracia. Mas o poder económico, que depende apenas de si, também procura a legitimação intelectual e científica dos seus interesses, como é evidente se olharmos para quase tudo o que se produz com o apoio da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Como se tem visto, nos apoios da FCT, que estão sujeitos ao escrutínio público, caberão os discípulos de Rui Ramos e de Fernando Rosas. Já na FFMS... Não é por acaso que a Economia, que foi a primeira das ciências sociais a estar fortemente dependente dos financiamentos privados e parcerias com empresas, é onde a academia é ideologicamente mais monolítica. Saem de lá quase todos a dizer o mesmo.
Na realidade, a razão pela qual a direita liberal se opõe ao financiamento público das ciências sociais é a mesma pela qual se opõe ao financiamento público das artes. Porque despreza a ciência e a cultura? Claro que não. A direita não é, ao contrário do que a esquerda gosta de pensar, ignorante. Apenas porque a dependência exclusiva ao financiamento privado dos centros de produção de discurso crítico os torna muito mais simpáticos para o poder económico e, por arrasto, muito mais próximos da sua agenda ideológica. É o pluralismo a que o Estado democrático está obrigado que, na realidade, os incomoda.
Sobre os números do défice, anunciados ontem (depois de uma semana de pré-anúncios), escrevo amanhã na edição do Expresso. Não especialmente sobre este resultado de um perdão fiscal, mas sobre o absurdo ambiente de festa em que vive o governo, tão distante da realidade concreta do País.


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