segunda-feira, março 16, 2015

O ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES

O deboche de César

por FERNANDA CÂNCIO
Partilho há anos o espaço de crónica no DN com João César das Neves. Dificilmente estaremos de acordo em alguma coisa e não raro considero ofensivo o que escreve; porém, a sua crónica desta semana não traz nada de novo nem me irrita mais do que as anteriores. Talvez seja pois um caso de copo transbordado pela repetição das mesmas falsidades.
Das Neves tem todo o direito a ter aversão ao sexo, à igualdade de género, à liberdade, aos contracetivos, ao aborto, à homossexualidade, ao divórcio, ao ateísmo, etc. Como eu de odiar pescada cozida e, caso um jornal me dê para tal espaço, passar a vida a repeti-lo. O problema começa quando, para "fundamentar" as suas aversões, o cronista insiste em falsear a história - por ignorância ou má-fé, é indiferente (ignorância renitente é má-fé). E essa versão falseada resume-se bem na expressão fetiche que não se cansa, como tantos da sua área religioso-ideológica, de invocar: "a família tradicional". Que opõe a "casamentos desfeitos, uniões de facto e ausência de natalidade" e, garante, "existia há séculos" tendo sido "revolucionada em poucas décadas".
É como se eu, para fundamentar o ódio a pescada cozida, garantisse que faz cancro. Não é o mesmo? Lamento, é. Há 150 anos (quando este jornal foi fundado), num país de religião oficial católica, em quatro milhões de habitantes, com média de idade de 27 anos e nove meses (42,5% da população tinha até 20 anos), entre os maiores de 21 quase 46% eram solteiros, com o grosso dos casamentos a ocorrer após os 30. Sendo que, nas meninas entre os 11 e os 15 anos, se encontravam 153 casadas e até oito viúvas (maravilha, a família tradicional pedófila). A coabitação sem casamento, que tanto mortifica César na atualidade, era comum. Como o adultério, apesar de crime se cometido por mulheres: "Chegamos a um tempo em que ninguem póde sinceramente dizer que conhece seu pae. Os assentos de baptismos estão todos falsificados", asseverava Camilo nesse ano. Mas a maior e mais saudosa maravilha, nessa época de ouro da "família tradicional" em que as prostitutas tinham boletim sanitário, é a tolerância com o infanticídio (do aborto nem vale a pena falar). Nem sequer incluído na categoria homicídio, era tão numeroso que levou o reino, ainda no século XVIII, a criar as anónimas "rodas de enjeitados". Só em Lisboa, de 1850 a 1870, foram aí entregues anualmente 2617 crianças, das quais quase todas morreram no primeiro ano. A partir de 1867, com a obrigatoriedade da identificação do abandonante, descobre-se ser a maioria das crianças fruto da gravidez de solteiras que viviam em casa alheia: "criadas", provavelmente.
Há gostos para tudo: César das Neves tem a nostalgia da "família tradicional". Convém é que saibamos todos - a começar pelo próprio - o que tal significa. E como a expressão "altar do deboche", que usa para os dias de hoje, não podia ser mais adequada para descrever a sua inclinação.

1 comentário:

Henrique ANTUNES FERREIRA disse...

Quimamigo

Sou, desde sempre, um fã da Fernanda Câncio e tenho muito prazer em o dizer. Haverá quem diga que ambos somos jornalistas e que a corporação profissional nos une. Há sempre muitos MALDIZENTES...

Tenho de te dar os parabéns pela excelente escolha que fizeste; eu não faria melhor e isso diz tudo, sem me pôr em bicos dos pés. Um elefante em pontas creio que nunca se viu...

Qjs para a Fernanda e abç para tu (não gosto de ti, ups, do ti...

PS - (sou, mas aqui é Post Scriptum...) Continuo a esperar pela tua visita àravessa